Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Bebidas de São José dos Campos e Região

Chacina no Rio: Operação policial deixa mais de 130 mortos e é classificada como massacre pelo Estado.

2025-10-30T23:12:48+00:00

Relato detalha gravidade de operação policial no Rio, apontada por ativistas como massacre

Moradores dos Complexos da Penha e do Alemão relataram o uso de localização por celular para encontrar as vítimas da megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro. Familiares das vítimas só conseguiram acessar as áreas de mata por volta das 23h, após o cessar-fogo. Durante todo o episódio, policiais orientaram familiares e jornalistas a não se aproximarem do local, alegando riscos de segurança.

Ativistas de direitos humanos e movimentos sociais que acompanharam a retirada de mais de 60 corpos de uma área de mata no Complexo da Penha classificaram o episódio como uma “chacina” e um “massacre” promovido pelo Estado. A ação, ocorrida no dia anterior, é considerada a maior operação policial já realizada no estado.

O empreendedor social e comunicador Raull Santiago, nascido no Morro do Alemão, foi um dos primeiros a noticiar o encontro dos corpos em transmissões ao vivo nas redes sociais. Em suas falas, Santiago destacou a profunda desigualdade que a operação evidencia.

“Essa é a face da cidade maravilhosa, que é capital na América Latina quando pensamos em turismo. Eu amo a minha cidade, o meu estado, a minha favela, mas há momentos em que a desigualdade grita, o poder direciona o seu ódio e traz, da forma mais brutal possível, o seu recado para quem vive em comunidades como a nossa”, lamentou.

Sobre a dor dos familiares, ele complementou: “Infelizmente, pela minha realidade, eu já estou acostumado a ver corpos, baleados, estraçalhados. Mas, [com] isso aqui, eu nunca vou me acostumar.”

Números podem superar 130 mortos e expõem falência da política de segurança

Os números da letalidade são alarmantes. Na terça-feira (28), dia da operação, as autoridades confirmaram 64 mortos, incluindo quatro policiais. Contudo, relatos de moradores e ativistas indicam a existência de muitas outras vítimas. Pelo menos outros 70 corpos teriam sido retirados por moradores de áreas de mata — seis no Complexo do Alemão e 64 no Complexo da Penha. Se confirmada a ausência de duplicidade nessa contagem, o total de mortos pode ultrapassar 130 pessoas.

Para Raull Santiago, essa tragédia é um marco histórico que evidencia a falência da política de segurança pública. “Tanto essas execuções, quanto os policiais que morreram, tudo isso [são] marcos históricos que gritam a ineficiência da política de segurança pública do Rio de Janeiro. Ou, pior que isso, a eficiência dela: a forma como ela é desenhada, estruturada, pensada e aplicada para lidar com algumas vidas”, afirmou. “Da favela para dentro, tiro, porrada, bomba, invasão, desrespeito, chacina, massacre. Em outros endereços, o tratamento é quase vip”, criticou.

Especialistas e ONGs apontam falta de vontade política para mudar o modelo

O presidente da organização não governamental Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, que também acompanhou a retirada dos corpos, pediu a responsabilização do governador Cláudio Castro. Ele ressaltou que a única novidade neste episódio é sua escala trágica, pois a política de segurança que o produziu é a mesma de décadas.

“O que há de novo nesse massacre? Apenas a sua extensão, a quantidade de mortos… O que não há de novo é essa política de segurança pública, a destruição da vida do morador de comunidade. Quando ouvimos as respostas sobre a operação, ouvimos o que foi falado há 40, 50 anos atrás”, lamentou. “As causas desse gravíssimo problema social já foram elucidadas, mas por que medidas tão óbvias não são implementadas? Porque falta vontade política. Porque quem morre são os moradores de comunidades e porque são eleitos homens que conseguem chegar aos mais altos postos com o discurso do ‘bandido bom é bandido morto’”, completou.

Em contraponto, o governador Cláudio Castro defendeu a ação, afirmando que ela foi minuciosamente planejada ao longo de seis meses, com aval do Poder Judiciário e acompanhamento do Ministério Público.

Especialistas em segurança pública, no entanto, criticaram a operação. Para a professora Jacqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), a ação foi amadora e uma “lambança político-operacional”, que gerou grande impacto sem atingir o objetivo de conter o crime organizado.

Movimentos populares e de favelas se uniram na condenação ao episódio, reafirmando que “segurança não se faz com sangue” e defendendo um novo modelo de política pública que priorize a vida e os direitos humanos.

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