Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Bebidas de São José dos Campos e Região

Empresas começam a abandonar a escala 6×1 sob pressão dos trabalhadores e crise de mão de obra

2026-02-19T12:13:17+00:00

Grandes empresas começam a abandonar a escala 6×1 — não por generosidade, mas por pressão dos trabalhadores e dificuldade de manter mão de obra em jornadas exaustivas. O movimento acontece antes mesmo de qualquer mudança na legislação e reforça o que sindicatos e pesquisadores vêm dizendo há anos: trabalhar seis dias por semana, com baixos salários, é insustentável.

No primeiro semestre de 2025, o hotel Copacabana Palace retirou progressivamente a escala 6×1 de cerca de 350 trabalhadores da equipe operacional e passou todos para a 5×2. No setor supermercadista, a rede Supermercados Pague Menos, presente em 21 cidades do interior paulista e com cerca de 8 mil empregados, iniciou a transição para a 5×2. Parte das lojas deixou de funcionar aos domingos e outras reduziram o horário dominical.

No varejo farmacêutico, as redes Drogarias Pacheco e Drogaria São Paulo, que pertencem ao Grupo DPSP, também adotaram a escala 5×2 em 2025 em suas mais de 1.600 unidades.

As mudanças ocorrem em meio à dificuldade de contratação. Em 2025, a Associação Brasileira de Supermercados informou que o setor tinha 350 mil vagas abertas não preenchidas. Para o presidente da União Geral dos Trabalhadores, Ricardo Patah, o motivo é claro: trabalhadores não aceitam mais jornadas de seis dias por semana por salários baixos.

Pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho apontam que a rotatividade crescente — com previsão de cerca de 9 milhões de demissões voluntárias em 2025 — está ligada à exaustão e à falta de perspectiva. Segundo dados citados por especialistas, 70% dos trabalhadores formais ganham até dois salários mínimos, valor que não alcança R$ 3.300 mensais. A combinação entre jornada longa e remuneração insuficiente gera insatisfação, queda de produtividade e aumento de custos para as próprias empresas.

Enquanto isso, entidades patronais como a Confederação Nacional do Comércio defendem que mudanças na jornada ocorram apenas por negociação coletiva, sem imposição legal. Na prática, essa posição mantém a desigualdade de condições entre empresas que reduzem jornadas e aquelas que seguem explorando o modelo 6×1.

A cooperativa Coop também anunciou a adoção da escala 5×2 em todas as suas drogarias no Grande ABC, São José dos Campos, Sorocaba, Piracicaba e Tatuí. No setor de supermercados, iniciou um projeto piloto em Piracicaba, mantendo o horário de funcionamento e prevendo novas contratações, se necessário.

O cenário revela uma tendência: a escala 6×1 está sendo superada pela realidade social e econômica. Não se trata de benevolência empresarial, mas de pressão concreta dos trabalhadores, mudança no perfil da força de trabalho e disputa por mão de obra. A redução da jornada, defendida historicamente pelo movimento sindical e por setores da esquerda, deixa de ser apenas pauta política e passa a ser exigência prática para manter trabalhadores no emprego.

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